N/A

A mentira tem pernas curtas

João Baptista Galhardo

A moça era gorda. Falava pouco e com alguma dificuldade. Tinha uma perna avermelhada e mais grossa do que a outra. Estava acompanhada de uma jovem que falou no lugar dela. – “Olha meu senhor, esta coitada para conseguir uns trocados foi carpir um quintal e acabou sendo mordida por uma cobra. Foi tratada a tempo, mas ficou com a perna assim. Estava trabalhando para juntar dinheiro. Precisa ir para São Paulo acompanhar o tratamento de sua filhinha que vai ser operada. Não tem dinheiro para a passagem e ainda precisa arrumar para pagar o anestesista”. Viajaria de madrugada para chegar cedo na Capital. A moça da perna grossa chorava. Com ela chorei também. Dei-lhe robusto donativo. Diante de minha atitude quase desmaiou de alegria. Fui para casa com aquele quadro na cabeça. Fiz novamente as contas e percebi que a quantia que lhe dera seria insuficiente para cobrir todas as despesas arroladas. Como durante a conversa vazou o endereço, já noite, fui até a sua casa para completar minha doação. A casa era a penúltima do quarteirão, vizinha de um boteco de esquina com duas ou três mesas de lata num coberto fora do estabelecimento. Para surpresa minha ali estavam, festejando, a moça “doente”, sua amiga e mais dois rapazes que brindavam com copos de cerveja, acompanhados de salgados.

Com curta investigação fiquei sabendo que não houve mordida de cobra. Não haveria viagem alguma. A moça “necessitada” não tinha filha. A única verdade era a sua perna, uma elefantíase. Um malefício (benefício útil) para outros golpes. Fui embora. De imediato aborrecido por ter passado por palhaço, mas ao mesmo tempo alegre, pois não havia nenhuma criança doente. Há pessoas que mentem com tal naturalidade que faz a emoção de quem está ouvindo atropelar a razão, não dando condição de se aferir de imediato a verdade. Na vida forense vi e ouvi muitas pessoas mentindo. Crianças e pessoas idosas convencem mais, porque choram e dramatizam de tal forma que qualquer um acaba acreditando. Pelo menos temporariamente. Lembro de muitos casos curiosos. Certa vez, quando chefiava o Comissariado de Menores da Comarca a Polícia levou para minha casa um menino de uns doze ou treze anos que dizia ter se perdido do pai, na saída da sessão diurna do circo, ao lado do mercado municipal. Disse que morava em Rincão, numa fazenda. A Polícia foi embora e eu fiquei com o garoto. Entrou em minha casa, sentou-se à mesa com minha mulher e meus filhos, lanchou, comeu sobremesa e me disse que tinha uma tia que morava em Araraquara, cujo endereço ele sabia. Fomos de carro à procura da tia. Não encontramos. Era domingo. Dormiu no Lar Juvenil. Na segunda feira um Oficial de Justiça foi levá-lo para a tal fazenda, onde residiria. Não encontraram a moradia do menino. O Oficial percebeu logo que ele estava mentindo. Sobre o rio Mogi piscou para o motorista, dizendo: “pegue aquela corda no bagageiro. Vamos amarrar os pés e as mãos dele juntamente com uma pedra. Jogamos no rio e depois falamos para o Juiz que entregamos para a família”. O menino imediatamente confessou. Não tinha se perdido do Pai, que, aliás, nem tinha. Morava no centro de Araraquara. Sua mãe trabalhava para a família de um Promotor de Justiça e o garoto havia fugido de casa com salário da mãe. Numa outra oportunidade um menor chorava implorando para a Polícia soltá-lo. Negava a acusação de haver roubado uma bicicleta. Disse: “peguei essa bicicleta por engano”. Falei…”é fácil, devolva a que você pegou e vá para o lugar buscar a sua”. E ele confirma: “mas eu não tenho bicicleta”. É mole? Tem sempre alguém nos mentindo ou escondendo a verdade. O senhor Manoel ouviu no Jornal Nacional que a Polícia demorou trinta anos para descobrir que o genro matara a sogra, enterrando-a na sala de sua residência. Pensou então…estou com sessenta. Se eu matar a minha daqui a trinta anos estarei com noventa ou morto. Não teve dúvida. Aos poucos cavou um buraco sob o carpete da sala de jantar de sua casa e tendo uma oportunidade matou a sogra. Jogou-a no buraco, cobrindo-o com cimento, recolocando o tapete. Tudo perfeito. Quinze minutos depois chega a Polícia. Senhor Manoel? Está preso. – Por que? – Matou sua sogra. Mas como? Ouvi na Televisão que vocês demoraram trinta anos para descobrir um crime idêntico. – É verdade, disse o Policial: “só que aquele criminoso morava em casa térrea e não em apartamento do quarto andar, como o senhor. O cadáver da sua sogra acaba de cair na cabeça dos moradores do terceiro”. – “Raios me partam…”.

Compartilhe :

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Ateliê Clubinho Gráfico: Bottons nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Arquitetando nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Ateliê Serigráfica nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Show nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Espetáculo de teatro neste sábado no Sesc Araraquara

CATEGORIAS