Sarah Coelho indica como destaque da página Gente, o Prof. João Carlos Geraldo. Geógrafo (bacharel e licenciado), pela Unesp – Rio Claro e Mestre em Geografia Física, pela USP – São Paulo. O trabalhador do saber, atua presentemente como professor dos cursos de Turismo e Normal Superior, do Departamento de Ciências Humanas e Sociais da Uniara – Centro Universitário de Araraquara, sendo também coordenador do Parque do Basalto.
JA – Como se sente integrado à Uniara?
JCG – Não tenho queixas do ambiente da instituição. Sinto que há confiança e reconhecimento no trabalho que venho realizando, apesar de sempre haver expectativas que não se realizam completamente. Mas aconteceu em todos os locais onde já trabalhei. Creio que isso faça parte da vida.
Qual o destaque ao longo de sua carreira?
Sempre há altos e baixos, fica difícil destacar algo em particular.
Como tem sido seu trabalho na Uniara?
Bem, tenho um bom relacionamento profissional dentro da Uniara, o que já caracteriza uma grande vantagem. Fiz muitos amigos e há uma grande troca de conhecimentos num ambiente de universidade. Tenho na Uniara uma oportunidade única: administrar o Parque do Basalto desde o início das atividades, em 2000. Lá, com o apoio da instituição, venho implantando uma coleção botânica com finalidades didáticas. Como em meu mestrado trabalhei com paisagismo e espaços de uso público, é o melhor laboratório que eu poderia ter.
Qual o retorno no exercício de uma profisssão correta?
Creio que há a sensação de que, mesmo quando as coisas não se desenvolvem da maneira pensada ou planejada, se fez o melhor. Nem tudo depende apenas de nós.
Por que escolheu ser professor?
Bem, alguém tem de ensinar, não é? Há os que gostam realmente de ensinar e há profissionais com menos ética, como em todas as outras profissões. Educação é um assunto fascinante, pois, grande parte dos profissionais que conheço discutem sobre ela o tempo todo. Não é uma profissão de projeção social, nem está na moda, porém é necessária para o funcionamento da sociedade e deveria ser mais bem valorizada.
Como chegou à Geografia?
Desde criança sempre gostei de mapas e de saber coisas sobre outros povos e lugares distantes. Também me fascina a História, por isso prestei vestibular para as duas carreiras, tendo ingressado na Unesp, em Rio Claro, no curso de Geografia. Depois fui descobrindo, dentro da disciplina, as áreas que me interessavam mais e duas delas acabaram se tornando meu foco de estudo no Mestrado: Geografia Urbana e Biogeografia.
A saturação do mercado para educadores?
Como geógrafo sei que há uma saturação em todas as áreas. Os processos de informatização e automação vêm fazendo com que existam cada vez menos postos de trabalho, levando a um grau de competitividade nunca antes visto. A idéia que se tinha antigamente, de que um profissional, ao formar-se poderia exercer a profissão a vida toda sem reciclagem e novos conhecimentos não é mais válida. Vivemos uma espécie de lei das selvas: só os mais aptos – os mais bem preparados – sobrevivem. Tenho dúvidas se isso é bom ou não.
Como acompanhar os avanços na área?
Quem trabalha com ciência nunca deixa de estar procurando novas informações e conhecimentos. Há diversos meios para isso, dependendo do modo de trabalhar de cada um. Há cursos à distância, teleconferências, revistas especializadas etc. As universidades têm promovido cursos de reciclagem nas mais diversas áreas. No caso dos professores da rede pública de ensino, pelo que sei, a Secretaria de Educação vem gerando uma série de cursos para renovação do professorado. Mas se o indivíduo não se empenhar, o conhecimento não vem sozinho até ele.
O que é uma boa qualidade de vida?
Vou ficar um pouco no “depende”: cada um tem uma visão pessoal do que lhe é interessante, mais agradável ou benéfico. Mas acredito que a qualidade de uma vida passa pela relativa boa saúde (física e mental). Ter tempo para apreciar as coisas, quer sejam pertencentes à Natureza ou Sociedade, para mim, é fundamental. Não acredito que alguém tenha uma boa qualidade de vida sem um equilíbrio. É uma arte a ser alcançada, num mundo de rapidez sem propósitos muitos definidos para tanta velocidade…
Sua visão sobre Araraquara.
Freqüento Araraquara desde a época de graduação, pois morava com alguns araraquarenses, amigos que são muito queridos. Depois, graças a uma série de fatores, vim a ser contratado pela Uniara, por recomendação do Prof. Alcyr Azzoni, meu professor na graduação na Unesp. Vejo Araraquara como uma “pequena cidade grande” ou uma “grande cidade pequena”, pois oferece uma série de benefícios das chamadas cidades médias, mas com características, ainda, de cidades pequenas, como Brotas, onde resido. A paisagem urbana de Araraquara me agrada, pois ainda não é uma dessas “cidades-paliteiro”, cujo centro não se parece com coisa alguma, de tantos edifícios impessoais e sem história.
Estresse da profissão.
Li, há pouco tempo, que o magistério é uma das profissões com maior nível de desgaste mental e emocional, já que se lida diretamente com o ser humano e sempre há um alto nível de conflitos e de envolvimento pessoal nessas relações. Temos hoje uma forma diferente de ver a educação e o papel do professor, diferente daquele sujeito “que tudo sabia” e era inquestionável. Também vejo a sociedade brasileira como sendo muito permissiva, onde comportamentos não muito polidos são plenamente aceitos como naturais no relacionamento social, causando conflitos pessoais muito desgastantes. Como disse Sérgio Buarque, o brasileiro é um homem cordial e por isso determinadas fronteiras da vida civilizada são ultrapassadas sem muito respeito pelo outro (isso serve tanto para alunos como para professores).
Quais as dificuldades dessa profissão?
Acredito que as dificuldades sejam decorrentes dos conflitos, como disse. Também há uma grande dificuldade em saber qual é o papel da escola em um mundo globalizado, baseado em relacionamentos rápidos e virtuais, com pouco espaço para o descobrimento das coisas. As novidades nos atropelam e não temos tempo de decifrá-las, compreendê-las e incorporá-las e isso reflete no ambiente educacional. A sociedade em geral e o aluno em particular, esperam que sejam passadas informações rápidas, sempre up to date e eu, particularmente, vejo o processo de aprendizado como um prazer que vem lentamente com a descoberta e com uma certa dose de sofrimento e frustrações, até que se aprenda a apreciar o conhecimento. Há, atualmente, um desinteresse muito grande por leitura e ela ainda é a base da construção do conhecimento, mesmo que alguns preguem o contrário.
Um caso interessante…
De maneira geral é quando algum ex-aluno te encontra e agradece pelo que você passou a ele. É quando sentimos que fomos úteis para a vida de alguém e cumprimos com nosso papel.
A arte de se ensinar Geografia.
Tentar ensinar, hoje, é realmente uma arte. É preciso gostar de ciência. Quem não gosta de aprender, não gosta de ensinar.
Mensagem
Uma vez me disseram que a melhor forma de aprender é ensinando. Estou tentando…