JORNAL DE ARARAQUARA
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Tardes bem ensolaradas com muitas emoções

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Tardes bem ensolaradas com muitas emoções

Texto: Benedito Salvador Carlos (Benê), colaboração de Deives Meciano.

Esta reportagem, inicialmente inserida na Revista Comércio & Indústria (Ivan Roberto Peroni), registra memória que hoje ganha graça. O famoso Manolo (especialista em correr em cima de muros) fez história com sua Lambreta. Aplaudido pela geração anos 60 inspirou muitos pilotos de motocicletas.

O domingo à tarde nos pegou estacionados um pouco à frente do balão do meio da Fonte Luminosa (Balão do Soldado). Era nosso ponto de encontro: Zé, Diogo e Baiano Faito, Salerno, Dinho DallAcqua, Olympio Bernardes Ferreira Neto, Eduardo Luzia, Pinho, Toninho Assumpção, Luiz Antonio Candido, José da Penha Moreira, Adolfo e José Roberto Tedeschi, dentre outros. No encontro dos motociclistas chegava uma galera enorme para um bate-papo com a geração anos 70. Compareciam os proprietários de carrões que também eram amantes da velocidade. Camilinho Dinucci tinha uma Corvete, Romeu Baptistini e Valdir Freire com seus Mustangs; Dario Pires, Antonio Carlos Selvino e Paulinho Ciborg com suas Alfas Romeu; Nivaldo Papini com um Dodge Dart vinho, Paulinho Ferramenta com um Karmann Ghia, Elias Abi Rached com Galaxie verde de rodas raiadas; Zinho Cefali com um Opala 250S. No mesmo instante, Zeca e Pirola com seus Fuscas. Era um verdadeiro desfile dando carona a Gordines, Sincas e DKWs. Os motociclistas, por sua vez, eram arredios. Estacionavam e andavam às vezes acelerando um pouquinho mais.

NAQUELE DIA

Com a galera trocando ideias, sentado no gramado, o conhecido Manolo (Emanoel Toledo de Lima) com sua Ducati Diana 250 cc. Em dado momento, apareceu Adolpho Segnini Neto com uma Yamaha 200 cc, dois cilindros, azul, zero Km, pertencente à revenda Satis, na Avenida Presidente Vargas, de cuja empresa era gerente de vendas. Sua chegada ouriçou a todos apreciando a nova máquina. Papo vai, papo vem e Manolo foi convencido a experimentá-la, estipulando uma condição: que Adolphinho fosse junto pilotando sua Ducati. Subiram e desceram a Fonte Luminosa, fizeram outra vez o percurso e foram se animando até que as gentilezas se acabaram e o "pau comeu solto".

Os balões eram sugados pelas rodas girando com rapidez máxima.

Subiram do primeiro ao segundo balão (Troleibus) já abrindo o acelerador. O respeito ao passeio tinha acabado. Contornaram o segundo balão e "ferraram um pau de volta", briga de cachorro grande. Segnini se transformava, não tinha medo de nada, fazia parte do time de pilotos que chamávamos de "loucos". Já Manolo tinha um passado recente de grande vencedor, naquele instante melhor representante de Araraquara na categoria lambretas especiais. Além de seu estilo arrojado de pilotar, também era um malabarista em cima das duas rodas, como nunca eu havia visto outro igual. Tudo vinha muito bem, até que o imponderável aconteceu: na frente de ambos, rodava bem devagar em seu passeio dominical, um fusca branco 1.200 cc, com um casal, uma criança e a vovó. Adolpho, no limite, vinha pela direita e Manolo igualmente pela esquerda. Sem pestanejar tentaram a ultrapassagem. O motorista assustado com o barulho da Ducati puxou para esquerda fechando involuntariamente Manolo, que mesmo freando firme e com destreza acabou batendo no carro e raspando na sarjeta. Caiu ganhando pequenos esfolados pelo corpo. Adolpho, visivelmente transtornado, desceu de sua motocicleta e avançou sobre o pobre motorista, como se ele fosse culpado de andar tão devagar naquela hora. Por muito tempo demos muitas risadas pelo acontecido. Coitado do motorista, não tinha nada com isso passeava tranquilo com a família e ainda levou uns empurrões. Confusão terminada, Segnini recolheu a motocicleta que exibia, levando-a de volta para a revenda. Quanto a Manolo, além de seus compromissos profissionais com a Estrada de Ferro Araraquara (EFA) e Waldemar Zago do Moto Veslam, seguiu sua trajetória de grande piloto.

Só passear para "matar a saudade".

PRIVILÉGIO INCOMUM

Para meu gosto pessoal, tive a oportunidade de correr em categorias diferentes, na cidade de Jaú. Naquele dia era para Manolo não correr, pois se recuperava de um acidente de rua que comprometera o movimento de sua perna direita, a do freio. Perto do início da prova, por ironia do destino, alguém desistiu e acabou sobrando uma lambreta. A ordem era: ELE não pode correr. Com todo o jeitinho e prestígio que possuía, acabou convencendo a direção de prova em deixá-lo largar, na condição de sair em último e só passear para matar a vontade. Combinar é uma coisa, agora pedir para um piloto de ponta "maneirar" é absoluta perda de tempo. Com todo o cuidado, somente usando o freio dianteiro, passo a passo foi ultrapassando quem estava na sua frente terminando a corrida na terceira posição, reclamando ainda que a prova tinha terminado muito cedo. Ao término da prova, ainda me lembro do suor correndo pelo seu rosto, os poucos cabelos despenteados e ainda do brilho dos seus olhos ao descer da lambreta. Muitos abraços por ele ter recebido a bandeira quadriculada e o alívio da equipe do Moto Clube Araraquara por nosso piloto ter completado o percurso sem nenhum arranhão.

Velhos Tempos, Belos Dias.