JORNAL DE ARARAQUARA
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(Editorial) O ponto final

Um artigo magnificamente alinhavado e que merece ser indicado aos leitores. Autoria do festejado pensador Leandro Karnal. Da edição, sempre nobre, dO Estado de S.Paulo. Vale ser lido com muito carinho...

"Cada vez mais os vivos são comandados pelos mortos, pensava o positivista Augusto Comte. A frase do francês é uma aposta no peso do passado e na influência de pessoas pretéritas sobre o presente. Novembro é dedicado às almas na tradição católica. O feriado de Finados abre a reflexão do penúltimo mês do ano.

Existe uma história do cotidiano e das atitudes humanas que é muito rica. O fato de que você não gostou muito do tema finados é mostra de uma tanatofobia, uma aversão à morte, marca do nosso tempo.

Não velamos parentes em casa, como era hábito. Jovens raramente vão a cemitérios ou a ritos fúnebres. A morte foi tornada asséptica, distante, hospitalar, isolada e clínica, nunca social. Luís XIV agonizou com muitas testemunhas de Versalhes. Hábitos antigos como máscara mortuária, recolher as últimas palavras ou até o curioso caso do último suspiro de Thomas Edison pertencem ao passado. O corpo morto inspira medo a muitos. Muito antes da atual aversão ao cadáver, os judeus já tinham o saudável hábito de deixar o caixão fechado. A intimidade da morte e do corpo pertence ao indivíduo. Por falar em Judaísmo, tenho uma grande amiga racional cética, mente mecanicista absoluta. Ao sairmos juntos do cemitério judaico para o rito fúnebre do pai, ela me pediu que parasse em uma banca de jornais na volta. Pensei: "Como alguém pode pensar em comprar jornais após perder o pai?". Só depois ela me explicou o real motivo: não trazer do cemitério o "anjo da morte". A paradinha era estratégica. Questionei: "Você não era cética?". Ela consentiu com a cabeça e disse que não queria mais tocar no assunto. Cultura é anterior à dúvida.

Somente a partir do século 19 surgiu o hoje decadente hábito de frequentar cemitérios prestando homenagens aos entes queridos.

Os cemitérios judaicos são, muitas vezes, marcados pela igualdade tumular. Os islâmicos evitam colocar o nome do ocupante para evitar quaisquer cultos aos que se foram. Os cemitérios católicos são explosões de criatividade. Podem ser peças de requinte artístico extremo, como o Campo Santo de Gênova, o mais impactante cemitério que já visitei. Em lugares de enterros podemos acompanhar a ascensão e a queda da riqueza de uma região, como vemos na região da outrora próspera cultura cafeeira do vale do Rio Paraíba do Sul. No apogeu cafeeiro do 19, abundam mármores importados e estátuas de bronze para o repouso dos barões da rubiácea. Quando o café migra para São Paulo e o modo escravista entra em declínio, os mortos acompanham o despojamento crescente dos vivos. Os rituais funerários são documentos ricos, como vemos na clássica obra A Morte é uma Festa, de João José Reis.

A morte foi tornada asséptica, distante, hospitalar, isolada e clínica, nunca social.

A morte empobreceu muito. Mesmo para falecidos abastados, hoje, não há carpideiras, banquetes fúnebres, carruagens com veludo negro ou cavalos com plumas escuras a desfilar solenes pelas ruas da cidade. A morte deixou de ser uma festa e a lotação dos cemitérios no Dia de Finados é geracional. Em vinte ou trinta anos, é coerente vaticinar que aqueles lugares pertencerão, exclusivamente, aos mortos.

Os ritos tradicionais católicos envolviam a invocação de São José, padroeiro da "boa morte". Por quê? José morreu ladeado por Jesus e por Maria, a companhia mais sublime para a passagem. Também era comum o nome do Arcanjo Miguel que venceu o demônio. Católicos usavam o escapulário da Virgem do Carmo para garantir o fim com assistência sacramental. A morte santa e serena era também a promessa do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque. As igrejas coloniais eram, muitas vezes, irmandades que tinham a obrigação de cuidar do enterro cristão de seus membros. A arquitetura barroca de Minas é composta, quase toda, por igrejas de irmandades da "boa morte". A grande preocupação era "ter onde cair morto", vestido com o hábito de um terciário franciscano ou carmelita, garantidas missas solenes para o descanso eterno. O mundo do Purgatório, a grande invenção da Baixa Idade Média segundo o historiador Le Goff, era um elo entre vivos e mortos. As orações dos vivos poderiam diminuir a pena dos defuntos. Era inútil rezar pelos habitantes do Céu ou do Inferno, ambos definitivos e imutáveis.

O Purgatório era um canal aberto entre o aqui / agora e o além.

Fora do Catolicismo, muitas vertentes cristãs achavam ímpia a ideia de ficar rezando pelas almas, pois o juízo de Deus era perfeito e não poderia ser influenciado pelas súplicas do fiéis. Apenas no livro dos Macabeus na Bíblia, não aceito como inspirado por grande parte da Reforma, surge a oração pelos mortos. O Judaísmo clássico nunca elaborou muito a ideia de vida após a morte. O Catolicismo chegou ao máximo da imaginação com a obra de Dante Alighieri.

Novembro é mês de pensar na finitude: a nossa e a do ano de 2018. A pergunta que não quer calar: o que você precisa fazer antes de morrer e antes do fim do ano? O que completaria sua obra biográfica?