JORNAL DE ARARAQUARA
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Grito pela dignidade

Em 2017, uma em cada 100 mulheres recorreu à Justiça devido à violência doméstica. Dados do Atlas da Violência, do Ipea/FBSP, de 2016, mostram mais de 4.600 assassinadas no País.

Levantamento do mesmo Instituto registra mais de 22 mil casos de estupros catalogados no SUS enquanto números exibidos pela Polícia são ainda superiores: 49.497.

Em razão da subnotificação desse tipo de crime, a estimativa é que teria havido entre 400 e 500 mil casos de estupro naquele ano. Detalhe, Atlas revela que 51% desses casos foram cometidos contra meninas com menos de 13 anos. Por essas estatísticas absurdas e por estar profundamente enraizada, a violência contra a mulher precisa ser combatida com mais rigor por autoridades dos poderes Judiciário, Executivo e Legislativo.

São inadiáveis políticas públicas para garantir o direito de escolha, a liberdade e integridade física.

As ações policiais e judiciais precisam ser mais céleres e leis devem ser rigorosamente cumpridas. Mas a sociedade também tem de entrar nessa luta e fazer a sua parte, não admitindo nenhum tipo de agressão e denunciando atos de violência física ou mental.

Nós, os médicos, temos o dever de trabalhar para combatê-la, pois somos os guardiões do bem-estar e da saúde dos cidadãos, sejam eles, mulheres, homens, crianças, idosos. E como combatemos? Orientando nossos pacientes, colocando nossas entidades nessa batalha, exibindo publicamente nosso repúdio à violência contra as mulheres e advertindo que esse tipo de truculência acaba atingindo também filhos, pais e irmãos.

Muitas vezes eles testemunham as atrocidades ou são agredidos também apenas pela proximidade física ou parental com a vítima.

É necessário que o sistema de saúde esteja capacitado para receber as vítimas para tratar de suas feridas físicas e psicológicas. Hoje, pela gravidade da questão, a OMS o trata como uma prioridade pública.

São também da OMS outros dados alarmantes. A mulher vítima de violência física ou abusada sexualmente por um parceiro possui 16% mais probabilidade de ter um filho abaixo do peso ao nascer, possui duas vezes mais probabilidade de sofrer um aborto, duas vezes mais possibilidade de ter depressão e ainda probabilidade maior de adquirir uma doença sexualmente transmissível em comparação aquelas que não foram agredidas pelo companheiro. O parceiro, aliás, é o agressor na maioria dos casos.

Portanto, é o momento de cobrar das autoridades e da sociedade a implementação de ações de combate efetivo à violência, a adoção de medidas de defesa no âmbito legal e a propor ações educacionais contra a barbárie. É preciso empenho, energia, firmeza e recursos. Mas, é importante mais ainda criar um ambiente em que prevaleça o respeito e a dignidade para todos os seres humanos.

Texto: Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica. acontece@acontecenoticias.com.br