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A Mágoa
Atualizada 8 de julho de 16 |  Comentários -   E-mail | Imprimir | Permissões e Reproduções | Assine matérias como esta | Compartilhar no facebook Siga Jornal de Araraquara no Twitter

João Baptista Galhardo (*)

Diz uma lenda árabe que dois amigos discutiram durante uma viagem pelo deserto. Um deles, ofendido, sem nada dizer, escreveu na areia: "hoje meu melhor amigo bateu no meu rosto".

Seguiram viagem e chegaram a um oásis, onde resolveram tomar um banho. O que havia sido esbofeteado começou a se afogar e foi salvo pelo companheiro. Ao recuperar-se, com um estilete, escreveu numa pedra: "hoje, meu melhor amigo salvou-me a vida". Intrigado, o amigo perguntou:

- Por que depois que bati em seu rosto você escreveu na areia e agora escreveu na pedra? Sorrindo, o outro respondeu:

- Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia, onde o vento do esquecimento e do perdão se encarrega de apagar. Porém, quando nos faz algo grandioso, devemos gravar na pedra da memória do coração, onde vento nenhum do mundo poderá apagar.

Que o vento apague da memória as coisas pequenas, como desentendimentos corriqueiros, que todo dia estamos sujeitos a ter.

Na lembrança devem ser guardadas as coisas boas, que normalmente as pessoas fazem e que poucas vezes são lembradas.

Mas, quem já não teve a sensação desagradável causada pela indelicadeza de alguém? E pior quando a pessoa magoada, pela idade ou por subordinação, não tem condição de manifestar o quanto se acha ressentida e indignada.

Dizem que o perdão deve ser dado incondicionalmente a quem quer que seja. "Perdoai Pai. Eles não sabem o que fazem". Ou se alguém lhe bater numa face ofereça a outra...

Não acredito, sinceramente, que todas as ofensas devam ser escritas na areia ou no gelo e aguardar a ventania ou o sol nascer. Pode-se esquecer o mal recebido, mas dificilmente se esquece o malfeitor.

Conta-se que numa comunidade resolveram visitar o abrigo de pessoas idosas (asilo para falar a verdade). Nessa ocasião distribuíram cupons entre os asilados. E uma mulher de 84 anos de idade foi contemplada com um rádio. Todos foram convidados para um almoço no Dia dos Idosos que se aproximava e que seria oferecido num festejado estabelecimento de ensino dirigido por religiosas.

No dia, com a presença de autoridades, professores, alunos, pais, padres e freiras foram os velhinhos homenageados na pessoa daquela ganhadora do rádio, que instada, pediu licença para agradecer, lendo e entregando aos organizadores a seguinte carta:

"Caros alunos, membros da Direção, Autoridades, Senhoras e Senhores.

Que Deus abençoe vocês pelo lindo rádio que ganhei no sorteio que promoveram. Tenho 84 anos de idade e moro num lar de velhos carentes.

Toda minha família já faleceu. Não tenho parente algum.

Por isso, foi muito confortante saber que existem pessoas que ainda se preocupam com o bem estar e paz de espírito dos seus semelhantes.

No nosso Lar, divido o quarto com uma companheira mais idosa do que eu. Ela tem 95 anos de idade. Não pode comparecer ao almoço por estar muito deprimida. Durante todos estes anos em que convivemos ela teve um radinho como o meu, que lhe fazia companhia constante. Ela nunca permitiu que eu o ouvisse, mesmo quando estava dormindo ou ausente. Há algum tempo, no entanto, o rádio caiu do criado e se espatifou no chão. Foi muito triste. Ela chorou muito.

Quando ganhei o rádio, no dia seguinte ela pediu para ouvi-lo e eu lhe disse: "Nem morta, sua velha filha da p..."

Obrigado por vocês terem me dado esta inesquecível oportunidade de desabafar minha mágoa.

(*) jbgalhardo@uol.com.br


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