JORNAL DE ARARAQUARA
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A Poupança Pública

Antonio Delfim Netto

O fato mais desagradável desse primeiro turno da campanha eleitoral - tanto para a presidência da República - como nas disputas para a governança estadual e cadeiras do Legislativo - foi o domínio dos marqueteiros que usaram a publicidade de forma lamentável: as campanhas foram transformadas numa produção de clips que contavam histórias muito duvidosas: os candidatos não se expuseram, não apresentaram aos eleitores suas ideias: ao contrário, cuidadosamente as esconderam, de forma que não houve debate, mas um "disse-me-disse" que em nada poderia ajudar no esclarecimento dos cidadãos. Esse foi o quadro geral do primeiro turno que terminou nas urnas do dia 05 de outubro.

No "andar de cima" - ou na principal cobertura, se desejarem - nenhum dos candidatos à chefia do governo federal se arriscou a sugerir como vai resolver o problema básico de gestão da economia no Brasil. E isto deveria ser tema principal de qualquer debate, quando os candidatos mostrariam que sabem como aumentar a poupança do governo. É uma das respostas que os eleitores devem exigir de ambos os candidatos: que digam o que farão para aumentar a poupança.

Temo que nos debates deste segundo turno vá continuar a teatralização, sob o domínio dos marqueteiros e nenhum dos candidatos se decida a provocar a discussão desse problema fundamental da economia brasileira. É preciso que eles esclareçam de que forma vão aumentar a poupança pública, pois esta tem sido a tragédia nacional do nosso tempo: os governos "despolpam" e o setor privado poupa; com a murcha do PIB a poupança do setor privado caiu muito enquanto a "despoupança"do governo continuou acontecendo nas mesmas dimensões de antes, com o Brasil investindo 17% do PIB; e quem investe 17% do PIB só pode, mesmo, colher um crescimento de 2% do PIB. Não adianta tergiversar, prometer reforma tributária e tal e qual, pois não vão fazer mesmo.

Em segundo lugar é preciso dizer como vai por em marcha outra vez o setor industrial que vem sendo destruído pela insistência nas políticas de combater a inflação com o câmbio. São questões que gostaríamos de ver os dois candidatos no debate da TV discutindo pessoalmente agora, frente a frente.

Uma terceira questão que poderia participar dos debates é porque a economia brasileira vem mantendo taxas de crescimento tão baixas ao mesmo tempo em que vivemos uma situação em que praticamente não há desemprego? Uma explicação é que nos últimos quatro ou cinco anos absorvemos os trabalhadores com rendimento salarial abaixo de 2 Mínimos e reduzimos o desemprego na faixa de salários acima de dois mínimos; ou seja, absorvemos a mão-de-obra não qualificada, o que é muito bom, apesar de se tratar de uma mão-de-obra menos produtiva. Esses fatos colocam uma questão que seria interessante debater, qual seja a do quanto precisamos aumentar o esforço para dar mais educação e pôr mais capital por trabalhador para aumentar a produtividade desse enorme contingente que ingressou no mercado de trabalho.

É uma excelente oportunidade para se discutir as manifestações deste fenômeno muito mais profundo que é a incapacidade do Brasil de voltar a crescer se não modificarmos a sua poupança, no nível macroeconômico.